sexta-feira, 26 de setembro de 2014

BRANQUINHA ENTRA EM NOSSAS VIDAS



Nem eu acreditei, bem no caminho da escola, aquele cachorrinho, tão pequenino, abandonado, mas nem se importava.

De um lado pro outro corria, papai o viu de longe e já foi freando, ainda bem, pois parou bem em cima dele, mais um pouquinho e o atropelava.


_E agora? Papai se o deixarmos aí vai acabar se ferindo ou morto.

_Didi, não inventa, já temos a Pixuca e também o Chinin, uma cachorra e um gato, perfeito, não podemos levar todos pra casa.

Papai desviou e foi seguindo devagarinho.

_E aquela história que vocês me ensinaram que não existe acaso, que tudo tem uma razão de ser? Ora, vovó diz que o que bate à nossa porta devemos receber de braços abertos.
_Sim, mas não estava falando de um cachorro.
_Está bem, quer dizer que só os humanos são criações de Deus, os animais não são? Não sentem dor, fome ou sede?
_Didi, pare com isso.
_Está certo, mas se na volta pra casa o senhor o encontrar morto ou ferido como é que vai agradecer a Deus por mais um dia? Por estarmos todos bem?

Nestas alturas, papai havia parado o carro. Balançava a cabeça e dizia: _Não acredito, não acredito, você está usando o que te ensinamos para me deixar com culpa na consciência.
_Eu não, só acho que se vocês falam é porque é verdade. Vovó disse que todo ser vivente é criação Divina e está em processo de evolução e disse que os animais em especial estão sob nossa responsabilidade, pois nós humanos já passamos por esta fase e agora como seres racionais devemos protegê-los.
_Às vezes, acho que a vovó ensina coisas certas, mas sem explicar que não se pode levar ao pé da letra, na vida minha filha existem várias situações que ficamos de mãos atadas.
_Eu sei papai, mas neste caso, não estamos de mãos atadas, é só pegar o bichinho, levar pra casa e quem sabe achamos um dono pra ele e evitamos dele ser atropelado.
_Está bem, vou dar volta no quarteirão, se ele ainda estiver por lá nós o pegamos, se não estiver é porque não era para nós está missão.

Adivinhem, chegamos à quadra que ele estava, de cara não o vimos, papai foi andando devagarinho e mais adiante lá estava ele, deitado no canteiro de uma árvore. Vibrei de alegria, papai não teve jeito, cumpriu o prometido, parou o carro e foi apanhá-lo, entrou no carro com um sorriso:

_Veja só, é uma menina, pelo jeito, lá em casa menino só eu e o gato. Vamos pra casa, agora tenho que ser rápido, senão perco a hora do trabalho.

Nem preciso dizer que vovó nos recebeu bem surpresa, papai contou a defesa que eu tinha feito a favor do bichinho e terminou dizendo, não vale reclamar a senhora também ensinou praticarmos o que ensinamos.
Ah! A escola, bem papai declarou que eu tinha que cuidar da Branquinha, eu pensei: “Ele já pôs nome, acho que não vou precisar procurar dono pra ela”.

Vovó balançou a cabeça e disse: _Bem, Branquinha, de certo, vai trazer muita alegria. Didi, vamos precisar fazer uma limpeza na Branquinha, ela é bem novinha, não podemos molhar, vamos preparar uma solução especial. Depois à tarde, a levaremos ao veterinário, será necessário vaciná-la, pelo jeito ela não tem dois meses. 

Vovó acertou em cheio, aliás ela é um gênio, Branquinha é uma mistura de fox paulistinha com qualquer outra raça, não vai ficar grande e o veterinário disse que ela está por volta dos dois meses.

Amanhã já combinei com vovó, trago o João, o Matheus e a Isa para conhecerem a Branquinha, eles vão amá-la, só falta explicar pra Pixuca e pro Chinin que eles continuam sendo muito amados, estão com um ciúmes danado.


Didi
26-09-2014
Luconi
26-09-2014


domingo, 7 de setembro de 2014

UM MENINO ABANDONADO UMA MÃE SEM FILHOS




Vovó aquela tarde quando nos viu juntos resolveu que nos contaria a história de seu Pedro, ele trabalhava com construções e reformas de casa, papai dizia que ele era empreiteiro.

Morava em nosso bairro, com a mulher e dois filhos pequenos, nos fundos de sua casa construíra uma casa com um quarto para sua mãe e pai, já com certa idade.

_Crianças, esta história o seu Pedro conta com muito orgulho, e finaliza dizendo: “Para tudo há uma razão, Deus não nos abandona, por caminhos às vezes tortuosos nos leva à estrada certa, é só confiarmos”. Vamos a história:

_Estava só, era tão pequeno, mãe ou pai não conhecera, se conhecera não se lembrava. A noite escura, a chuva forte e de repente aquela mulher empurrando uma carrocinha, cheia de lixo, caixas de papelão muitas, garrafas plásticas, de vidro, algumas barras de ferro, alumínio quase nada, alguns fios elétricos enrolados. Ela passou olhando pra ele, adiante olhou para trás, voltou e perguntou onde morava. 

Ele não sabia, costumava ficar embaixo de uma ponte junto com meninos grandes, eles sempre lhe davam comida, pão, ajeitavam alguns papelões no chão e ali dormia, não batiam nele, não o obrigavam a fazer nada, hoje entende que cuidavam dele como podiam, tinham dó, era como se ele fosse o mascote deles.

 De antes, era disso que lembrava, alguma coisa acontecera certa noite, todos saíram correndo, ele ouviu a sirene da polícia, escondera-se atrás da coluna, encolhera-se, eles se foram e ele ficara, dormira ali mesmo e no dia seguinte saíra, não queria ficar sozinho. Andou, andou, revirou os lixos, algum mendigo lhe dera um pedaço de pão, acabou anoitecendo e com a noite a chuva.

Agora aquela mulher fazendo perguntas, ele respondia, não queria ficar sozinho, perguntou quantos anos tinha, ele não sabia direito, ela o mediu de cima a baixo e chegou à conclusão que deveria ter uns seis ou sete anos, balançou a cabeça e foi taxativa, muito pequeno para ficar sozinho na vida, levou-o consigo e para sua alegria o colocou em cima da carrocinha, ela puxando.

 Chegaram a um barraco, ela entrou e foi ajeitando a bagunça, fazendo espaço na mesa velha, um homem chegou, ela explicou como o encontrara. O homem balançou a cabeça, não temos nem pra nós, ela disse que não ia pô-lo na rua. 
O homem lembrou que ela deveria estar sentindo falta dos próprios filhos, ela disse que os seus filhos estavam bem, com teto, cama e comida quente, sentia saudades, mas entendia que era melhor para eles.

Depois o menino soube, os seus filhos eram dois, um menino e uma menina, o pai tirara dela, alegara que era alcoólatra, realmente não era, uma pinga ou outra raramente, mas ele a queria fora de sua vida, arrumara uma mulher e a colocara pra fora, ela levara os filhos, ele na hora deixou, sem dinheiro, sem emprego, saiu catando lixo ou fazendo alguma faxina, uma amiga arrumara o barraquinho, durou pouco, em menos de dois meses o oficial do fórum veio e levou os meninos, ficara só até encontrar o companheiro.

Agora o menino estava ali, desamparado, precisava de uma mãe e ela de um filho, o companheiro entendera, era um bom homem, iria dar um jeito com os documentos, escreveria para as irmãs no Juazeiro, elas arrumariam uma certidão dizendo que o filho era de uma delas, lá na fazenda as crianças demoravam anos para serem registradas.

Próximo ano estaria na escola e ela faria dele um bom homem. O companheiro ajeitou uma cama pro pequeno, nunca vira a mulher sorrir daquela forma, seus olhos brilhavam e ele gostou, sentiu que agora teriam uma razão para estar juntos, uma razão para lutarem.

Antes de se deitar ela foi até a porta do barraco, abriu-a e firmou o olhar no infinito, ajoelhou e disse : ­ OBRIGADO, OBRIGADO.

O companheiro falou: _ Quando escrever às suas irmãs diga para registrar com o nome de Pedro.

_Pedro?

_Sim, Pedro quer dizer pedra, e ele é a pedra, o alicerce de nossa nova vida.

O menino, ouvira e gostou do que tinha escutado, finalmente teria uma mãe e um pai, finalmente.

Vovó terminara, nós, pela primeira vez, estávamos sem saber o que dizer, ela perguntou e então?

_ Deus é tão bom vovó, eu disse.
_Sim vovó, foi a história mais linda que eu ouvi- disse João.
_Mas o melhor é que aconteceu de verdade- disse Isa.
_Melhor que isso Isa, o menino cresceu e se tornou o seu Pedro que conseguiu uma profissão e é um bom filho, pois ele colocou os seus pais bem pertinho dele.

_Isto mesmo, Matheus, a semente de amor germinou e floresceu e esta é a parte mais bonita. Agora que tal uma pipoca?


Assim, vovó encerrava nossa tarde.

Didi

Luconi

07-09-2014
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